Rita apoema (textinhos que gosto)
“Não estou falando de um mundo cor-de-rosa ou de pessoas perfeitas, sempre prontas para nos acolher, amar, caminhar ao nosso lado. Não falo disso, mas da tristeza nos olhos de quem vira as costas e a gente não vê. A beleza por dentro de um peito encouraçado que a gente não sente. A solidão de quem afasta um amor e se deita em camas tão frias. É do instante quando os olhos se perdem no nada e nenhuma mentira é capaz de enganar si mesmo. É desse instante solitário, desse instante sem abraço, que eu digo. Todo mundo vai virar as costas ou dizer que merece coisa melhor ou debochar das mentiras que eles contaram… mas a gente pode sempre voltar e acolher com amor, ser os primeiros a começar. Afinal, se a hostilidade do mundo despertar a nossa, quem vai ser o primeiro a sorrir? “
“Não precisa ficar com ódio até crescer, quando ele abrir a porta e com mãos adultas esmagar seus sonhos de criança, haverá no gesto delas o desespero de um adulto tentando abrir com força uma caixinha de música, que nunca mais tocou ao seu coração rude. Não vê como bravo, ele está triste, procurando a infância dentro de você? Não vê como os seus braços, violentos, apertam tanto, tanto… querendo abraçar? Não vê como seus olhos duros estão querendo chorar? Vem, moço, vem brincar no balanço e no gira-gira. Vem ver a pequenina bailarina rodar. “
“Não precisa ficar com medo. Quando a sua mãe não abrir a porta e você passar o dia todo para o lado de fora, eu vou brincar com você e te abraçar tão forte que este sentimento de abandono irá se transformar em mil e quinhentas borboletas no ar, rodopiando em seu cabelo, fazendo cócegas em sua barriguinha. Então, você irá entender que sua mãe não pode abrir a porta porque dentro do quarto onde ela chora, faz tanto frio e tanto medo que o jeito mais bonito que ela encontrou de te amar foi te deixar para o lado de fora.”
“Deitada na grama, o céu empoeirado de estrelas. Passei o dedo e – curioso – algumas vieram grudadas na ponta. Olhei para cima e assoprei. Foi tanta estrela caindo que agora eu mal consigo enxergar de tanta esperança.”
“A dança não é nos braços ou nas pernas; sequer em qualquer movimento. A dança é isso aqui dentro, uma moça tímida que passa os seus dias trancada, até pensar que os tambores da música são apenas os seus amigos… batendo na porta.”
“Quanto tempo a gente leva para repousar os olhos nas pessoas ao nosso redor? E ir deslizando pelos pequenos detalhes, na beleza não manifesta e, ao mesmo tempo, ofuscante? Quanto tempo a gente leva para repousar os olhos nos olhos do outro, sem qualquer pressa, sem procurar ali dentro o próprio reflexo? Foi esses dias, Teresinha, eu aninhei as mãos de minha avó por dentro das minhas, encostando o meu rosto em seus dedos tão frios, como se ela tivesse acabado de nascer em seu corpinho já envergado pelo tempo e marcado pelos dias. Naquele segundo, eu entendi que nada era mais urgente, nem mais importante, do que ouvir a minha avó reaprendendo a falar… e que eu sequer começaria a ver alguém – além de mim mesma – se não pudesse enxergar as pessoas para as quais olhei a vida inteira.”
“Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto… até que amanheça.”
“Alguns escrevem pela arte, pela linguagem, pela literatura. Esses, sim, são os bons. Eu só escrevo para fazer afagos. E porque eu tinha de encontrar um jeito de alongar os braços. E estreitar distâncias. E encontrar os pássaros: há muitas distâncias em mim (e uma enorme timidez). Uns escrevem grandes obras. Eu só escrevo bilhetes para escondê-los, com todo cuidado, embaixo das portas.”